SERÁ QUE A HIDRATAÇÃO PODE SER TÃO SIMPLES COMO OUVIR O NOSSO CORPO?

Uma das intervenções médicas mais importantes é a solução salina. Quando uma pessoa é internada num hospital, as hipóteses são altas que lhe irão colocar um soro intravenoso que administra uma solução salina diretamente nas veias1.

O nosso corpo precisa de sal e água

Solução salina é apenas um nome “chique” para o nome comum: água salgada. A solução salina que se recebe num hospital é composta por 0.9% de cloreto de sódio.

A maioria das pessoas obtém a quantidade certa de água e sal naturalmente, bebendo água e comendo. Precisamos de água e sal para manter níveis adequados de sódio no sangue: 140 mmol de sódio por litro de plasma2. Se este número cair abaixo dos 135 pode levar a uma série de problemas, incluindo:
• Comprometimento cognitivo (dores de cabeça, confusão)
• Convulsões
• Coma

O termo médico, quando o nível de sódio no sangue está anormalmente baixo, é hiponatremia3. Pode ocorrer quando existem episódios prolongados de vómitos e diarreia e também em atletas que bebem água em excesso. Se um atleta consome mais água do que liberta através do suor e da urina, ocorre um aumento de água corporal total, em comparação com o sódio total no sangue4


Qual é a quantidade adequada de água que se deve ingerir?

Isto leva-nos a duas questões interessantes: como é que sabes quando estás a beber muita água? E quanta água deves beber?

Vale a pena referir que urinar e sentir sede são as maneiras pelas quais conseguimos regular os nossos fluidos. Também temos a capacidade de perceber intuitivamente que tipo de bebida precisamos: as papilas gustativas na boca enviam mensagens ao cérebro sobre quanto sal ingerir e quanta água é necessária. Essas mensagens causam uma cascata de reflexos antecipatórios que enviam informações sobre quando começar e parar de beber; isso ocorre antes que a água atinja a corrente sanguínea. Esses sinais vêm tanto do intestino como do cérebro5.

No entanto, beber água, hoje em dia, não é necessariamente baseado na sede. É baseado em:
• Prazer (ex: álcool, chocolate quente, limonada, etc)
• Para termos energia (ex: cafeína)
• Para nos acalmarmos (ex: chá de camomila)

Temos a capacidade de evitar sinais de sede (bebendo porque achamos que devemos) ou de ignorar os sinais de sede. Assim como aprendemos a ignorar outros sinais como dor, sensibilidade ou fome. 

Ouvir o nosso corpo

Quando criamos uma ligação com o nosso corpo, ganhamos a capacidade de prestar atenção ao que ele nos pede. Muitas vezes a solução resolve-se rápido, como beber água ou comer um alimento específico.

Há simplicidade em ouvir, mas esta simplicidade é muitas vezes posta em causa, porque pensamos que a solução simples não pode ser a solução real por ser “muito fácil”. Em vez disso, procuramos a complexidade, e talvez seja dentro dessa complexidade que perdemos a noção do que realmente precisamos.

Quando as coisas ficam muito desequilibradas, esquecemo-nos de ouvir os nossos sinais internos e não conseguimos perceber, por exemplo, quando temos sede. Quando isto acontece, temos que parar um momento, fazer uma pausa e ouvir o nosso corpo. 

Como disse Fred Rogers: “O profundo e simples é muito mais essencial que o superficial e complexo”.

Referências:

1. U.S. Food & Drug Administration. FDA Commissioner Scott Gottlieb, M.D., "updates on some ongoing shortages related to IV fluids," Press Release, 2018, Jan 16.
2. Parsons P.E., & Wiener-Kronish J.P., 2013. Chapter 45: Hyponatremia and Hypernatremia. In B.W. Butcher and K.D. Liu (Eds.), "Critical Care: Fifth Edition," pp. 322-328. Elsevier. Google Books.
3. James L. Lewis III, MD. Hyponatremia. On Merck Manual Professional Version. 2020.
4. Hew-Butler, Tamara, et al. "Exercise-Associated Hyponatremia: 2017 Update." Frontiers in medicine, vol.4:21. Mar 3, 2017.
5. Popkin B.M., D'Anci, K.E., & Rosenberg I.H., "Water, Hydration, and Health." Nutrition Review, Vol 68(8):439-458. 2011.